MotoGP

MotoGP anuncia corrida no Brasil em 2022 em autódromo do RJ que não existe

As incertezas que rondam o autódromo de Deodoro não impediram a MotoGP de fechar um acordo para correr no Rio de Janeiro já em 2022. Caso se confirme, a etapa será a primeira em solo brasileiro desde 2004, em Jacarepaguá

Grande Prêmio / VITOR FAZIO, de Berlim / GABRIEL CARVALHO, de Campinas
A quinta-feira (10) foi de notícia inesperada na MotoGP. A principal categoria de motociclismo anunciou planos de realizar uma etapa no Brasil a partir de 2022. A intenção da categoria é ir para o Rio de Janeiro, no ainda incerto autódromo de Deodoro, em um contrato com duração até 2026.
 
Caso se confirme, trata-se da primeira corrida da MotoGP em solo nacional desde 2004, no finado autódromo de Jacarepaguá. De lá para cá, apesar de flertes, ficou faltando um autódromo realmente apto para receber o Mundial. A situação se agravou com o fim das atividades do antigo autódromo carioca, demolido para dar espaço ao Parque Olímpico de 2016.
Área destinada à construção do autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)
Mesmo com as incertezas a respeito da viabilidade de Deodoro, com obstáculos financeiros e jurídicos, a prefeitura carioca tratou de exaltar a oportunidade de receber a MotoGP.
 
"A notícia de que já temos um primeiro evento em nossa nova pista, a MotoGP, confirmada para 2022, representa um grande avanço para nossa cidade”, disse Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro. “A construção da pista em Deodoro é um projeto espetacular, com investimento extraordinário que irá gerar 700 empregos e fazer o Rio ganhar um papel em grandes competições. Vamos desenvolver a Zona Oeste com suas necessidades e estimular turismo, tudo isso com a cidade sem colocar um centavo no projeto, já que todo o investimento será concessionado”, seguiu.
 
Carmelo Ezpeleta, diretor-executivo da Dorna, promotora da MotoGP, seguiu a mesma linha.
 
"Estou muito orgulhoso de anunciar que a MotoGP retornará ao Rio de Janeiro, uma das cidades mais icônicas do mundo em um país sensacional. O Brasil é um mercado importante para motos, motociclismo e esporte a motor, com uma história de se orgulhar e um futuro que estou ansioso para ver. MotoGP tem um papel importante já que retornaremos em 2022”, encerrou.

A MotoGP, assim, faz companhia à F1 na lista de categorias de olho no desenrolar da questão Deodoro. A prefeitura carioca, ao lado do governo federal, já havia prometido o retorno da categoria de monopostos ao Rio de Janeiro em 2020. Restando pouco tempo hábil e com contrato de concessão do terreno suspenso, fica claro que um adiamento será necessário.
A MotoGP conta com uma visita ao Brasil em 2022 (Foto: Yamaha)
Autódromo de Deodoro: um projeto que não sai do lugar

O autódromo de Deodoro é um velho desejo de gente ligada ao esporte no Rio de Janeiro, aflorado desde a demolição definitiva do Autódromo de  Jacarepaguá, em 2012, mas que já tinha seu futuro traçado anos antes. O terreno está localizado no Campo do Camboatá, em Deodoro, Zona Oeste da cidade, e foi cedido ainda em 2012 pelo Exército a um projeto que envolvia Ministério do Esporte, Prefeitura da Cidade do Rio de  Janeiro, além da Confederação Brasileira de Automobilismo e do Governo  do Estado. O passo seguinte era um processo de descontaminação por conta da existência de minas terrestres e explosivos no solo. 
 
O Ministério do Esporte, responsável por financiar as obras do autódromo, suspendeu o projeto em novembro de 2014, após sugestão do  Ministério Público. Na época houve uma exigência de um estudo do impacto ambiental das obras no local — uma das últimas áreas de Mata Atlântica na cidade. O Ministério se defendeu, disse que estava "preparando o atendimento das condicionantes ambientais que haviam  sido fixadas pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para emissão  da licença [das obras]". E que, apesar disso, a justiça suspendeu a  licença e embargou o projeto. 
 
Como o Ministério do Esporte abandonou o projeto após o imbróglio judicial de 2014, a construção do novo autódromo ficou sem um mecenas. Com a justificativa perfeita de que o terreno era minado e que uma série de bombas enterradas nos 2 milhões de m² de solo de Mata Atlântica, úmido e com mata fechada, seriam quase impossíveis de limpar, a Prefeitura, então chefiada por Eduardo Paes (MDB-RJ) e o Ministério do Esporte deixaram o assunto ser escanteado.
 
Sem condições técnicas de realizar os estudos de viabilidade, a Prefeitura propôs uma série de requisitos para ver se algum grupo privado era capaz de realizar o trabalho. Desta feita, houve de fato quem se apresentasse para realizar o estudo. Um projeto de mais de 700  páginas feito pelo consórcio Rio Motorsports — que tem como uma das formadoras a Tilke E&A, empresa do arquiteto alemão Hermann Tilke.
O autódromo de Deodoro no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)
Em 8 de maio, o presidente Jair Bolsonaro, junto do governador Wilson Witzel e o prefeito Marcelo Crivella, afirmou interesse em receber o  GP do Brasil na capital carioca. Segundo os governantes, que realizaram uma cerimônia para abertura de um termo de compromisso, as  negociações para a realização da corrida já em 2020 eram avançadas, no circuito ainda inexistente de Deodoro. Pouco depois, quando o  consórcio Rio Motorsports venceu e licitação — sem concorrência —, a publicação no Diário Oficial do Rio de Janeiro veio confusa e sem  qualquer explicação sobre como o projeto será financiado. Além disso, deu-se somente um dia depois de o Ministério Público Federal pedir que o processo licitatório fosse adiado devido à ausência de um estudo de impacto ambiental na região de Deodoro. 
 
Todavia, a realização da corrida implicaria na quebra do contrato vigente da F1 com São Paulo. O governador paulista João Doria e o prefeito Bruno Covas convocaram uma coletiva e afirmaram que o GP do Brasil não sairá de Interlagos.
 
Depois, o Ministério Público Federal confirmou um pedido de liminar para suspender a licitação que permite as obras, por conta da falta de  um Estudo Prévio Ambiental, já que a área em que o circuito foi projetado é parte de uma das formações florestais que correspondem a  Mata Atlântica. 
 
O juiz, em sua sentença, citou a obrigatoriedade de apresentação do estudo. Nela, afirma também que "é provável a degradação do meio  ambiente, pelas informações constantes dos autos". De acordo com informações do site da Justiça Federal do Rio de Janeiro, o juiz citou  especificamente "supressão de flora, desequilíbrio do ecossistema, possibilidade de processos erosivos, comprometimento da fertilização  de solo e outros fatores".
 
Ele também utilizou como justificativa um relatório do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico, além de recomendação do Conselho Municipal do Meio Ambiente, que deseja criar parque ambiental na área em que o autódromo é planejado. 
 
No dia 27 de agosto, a 5ª Turma Especializada do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) determinou a suspensão do contrato de concessão e construção do circuito, já que um relatório de impacto ambiental ainda não tinha sido realizado e aprovado pelo INEA. A ementa publicada citou que "se trata de Floresta de importante valor ambiental. As informações ofertadas no próprio instrumento  convocatório indicariam, per se, a inviabilidade ambiental do  empreendimento"
 
Por meio de nota, a assessoria de imprensa da Rio Motorpark se posicionou a respeito da decisão da Justiça Federal do Estado do Rio de Janeiro. "A empresa reitera que cumprirá todas as determinações da Justiça, bem com as indicadas no referido edital de licitação. Informa  ainda que já está em curso a produção de amplo estudo de impacto ambiental na região e que, uma vez concluído, o mesmo será encaminhado às autoridades competentes, conforme determinam as legislações vigentes". "No entanto, a empresa registra profunda estranheza com o pedido liminar, uma vez que este pede cumprimento de obrigações que já estavam previstas no edital para serem cumpridas pela empresa antes da celebração do contrato. Vale ressaltar que solicitação semelhante, requerida pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, já recebeu apreciação na Justiça, tendo já sido transitada em julgado no dia 30 de maio de 2018, há mais de um ano", complementou.
 
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