MotoGP

Depois de acabar com seca de 2.128 dias, Ducati alcança 32ª vitória na MotoGP e primeira dobradinha desde 2007

A Ducati precisou de 2128 dias para voltar a vencer depois de Casey Stoner encerrar sua passagem pelo time. Com o triunfo de Andrea Iannone, casa de Bolonha interrompe dominio das fábricas japonesas na classe rainha do Mundial de Motovelocidade

Warm Up / JULIANA TESSER, de São Paulo
Andrea Iannone entrou para a história da Ducati. Preterido pela fábrica de Borgo Panigale em favor de Andrea Dovizioso para uma vaga na equipe na temporada 2017, o italiano foi o responsável por encerrar um jejum de 70 meses sem vitórias da Desmosedici.
 
O último piloto capaz de levar o protótipo de Bolonha ao topo do pódio da classe rainha do Mundial de Motovelocidade tinha sido Casey Stoner, que em 17 de outubro de 2010, venceu o GP da Austrália com 8s598 de margem para Jorge Lorenzo, o segundo colocado. Valentino Rossi completou o pódio naquele dia em Phillip Island.
 
Contando com o triunfo deste domingo (14), a Ducati soma 32 vitórias na MotoGP, 23 delas com Stoner. Loris Capirossi contribuiu com sete, com Troy Bayliss somando uma à conta.
Andrea Iannone vai deixar a Ducati no fim do ano para a entrada de Jorge Lorenzo  (Foto: GEPA pictures/ Mario Kneisl)
Stoner foi o grande nome da Ducati em toda sua história. Dono de um estilo de pilotagem único, o australiano foi o único capaz de domar o moto de Bolonha. O touro vermelho derrubou inúmeros pilotos ao longo dos anos, nomes como Valentino Rossi, Nicky Hayden, Cal Crutchlow e alguns outros.
 
A última vitória da Ducati a não ser conquistada por Casey tinha sido há nove anos, com o triunfo de Loris Capirossi no GP do Japão. Também levou quase uma década para o time vermelho repetir uma dobradinha. Antes de Iannone e Dovizioso, os últimos a atingir tal feito tinham sido Stoner e Capirossi no GP da Austrália de 2007.
 

Além de marcar o fim de um jejum da Ducati, a vitória deste domingo também encerra uma seca para Andrea, que não vencia desde o GP da Itália de 2012, ainda na Moto2.
 
O triunfo da Ducati é também uma reafirmação da direção seguida pelo Mundial. Entre as 89 corridas disputadas entre o GP da Itália de 2011 e o GP da Catalunha de 2016, a MotoGP viu cinco vencedores — Rossi, Stoner, Lorenzo, Pedrosa e Márquez. Nas últimas três, os vencedores foram Jack Miller, Marc e Iannone.
 
O caso do australiano é mais um acaso, já que acontece em uma corrida marcada pela chuva, mas a volta da Ducati ao topo é resultado do trabalho dos últimos anos, que permitiu que a Ducati acelerasse seu desenvolvimento para acompanhar as fábricas japonesas.
 
O caminho no Mundial
 
O grande sucesso na classe rainha do Mundial de Motovelocidade veio só em 2007, pelas mãos de Stoner. Aos 20 anos, o australiano deixou para trás a alcunha de ‘Rolling Stoner’ — um apelido que nasceu após Casey cair em sete das 17 provas de sua temporada de estreia — e encaixou como uma luva na GP7, moto que abriu a era das 800cc e foi projetada para atingir maior velocidade de curva.
 
O bom entrosamento do jovem piloto com a Desmosedici e com os pneus Bridgestone acabou culminando em um resultado surpreendente — até mesmo para a Ducati —: o título dos Mundiais de Construtores e de Pilotos.
 
No ano seguinte, entretanto, Valentino Rossi recuperou a coroa da MotoGP, repetindo o feito na temporada seguinte e vendo Jorge Lorenzo assumir o trono em 2010, mantendo um domínio de três anos da Yamaha.
 
A Ducati, por sua vez, seguiu vencendo aqui e ali, atingindo um total de 31 triunfos na MotoGP — 23 deles conquistados por Stoner —, mas não mais em posição de quebrar o domínio das montadoras nipônicas.
 
Se sentindo desprestigiado pela fábrica de Bolonha, Stoner decidiu partir para a Honda e foi substituído por Rossi, que, convencido por Filippo Preziosi, encerrou sua ligação com a Yamaha e partiu em busca de um sonho completamente italiano.
Gigi Dall'Igna é o homem por trás da evolução da Ducati (Foto: GEPA pictures/ Mario Kneisl)
A aventura do multicampeão com a ruivinha de Borgo Panigale acabou se convertendo em um dos maiores fracassos da história e Rossi logo encontrou seu caminho de volta à casa de Iwata.
 
Em 2012, a Ducati foi comprada pela Audi, que tentou evitar a saída de Rossi, mas apesar do esforço da fábrica alemã, o piloto já tinha perdido a confiança na equipe de Bolonha. 
 
A gigante da indústria automobilística começou, então, a mexer na estrutura da Ducati. Embora provavelmente não seja o único culpado pelo fracasso da Desmosedici, o centralizador Preziosi levou a culpa e foi removido do mundo das competições, pedindo demissão na sequência. 
 
Ex-chefe do programa da BMW no Mundial de Superbike, Bernhard Gobmeier comandou o show em 2013, a temporada em que a Ducati somou seu menor número de pontos desde a estreia na MotoGP.
 

O novo fracasso resultou em uma outra mudança, com Gobmeier sendo substituído por Gigi Dall’Igna na reta final de 2013. Ex-diretor-técnico da Aprilia, o italiano pavimentou o caminho que levou a Ducati de volta aos holofotes.
 
Dall’Igna chegou à Ducati em um momento difícil. Embora o fracasso do projeto com Rossi tenha deixado uma marca na carreira do multicampeão, os resultados arranharam a imagem da companhia e não havia nenhuma alternativa a não ser admitir que a Desmosedici não era uma boa moto.
 
Por três anos, a Ducati aumentou progressivamente seu atraso em relação às motos japonesas e a Desmosedici enfraqueceu todos os pilotos que nela ousaram subir. Todos, exceto um: Casey Stoner. 
 
Sob o comando da Audi, a pressão por resultados começou a aumentar, assim como a cobrança dos patrocinadores. Hoje chefe da Ferrari na F1, Maurizio Arrivabane pressionava a Ducati enquanto representante da Phillip Morris e chegou a dizer: “Você pode perder, mas com dignidade”.
 
A chegada de Gigi deu um novo ânimo para a companhia, mas a espera por uma moto vencedora ainda foi longa. Ao chegar à Borgo Panigale, Dall’Igna procurou se livrar de todas as desculpas e reconheceu que um atraso do tamanho do que a Ducati tinha em relação à concorrência não podia ser resultado de uma única falha no projeto. 
 
 Com a organização interna mais ou menos encaminhada, a Ducati chegou a conclusão que a única maneira de conseguir se aproximar das rivais era obedecendo ao regulamento Aberto, já que isso a permitiria seguir trabalhando no motor. Mais do que qualquer benefício como pneus mais macios ou tanque de combustível com maior capacidade, foram os testes ilimitados e o motor descongelado que seduziram Bolonha.
 
A Ducati começou a temporada 2014 com a meta de reduzir seu atraso para menos de 10s, o que conseguiu fazer em algumas corridas, como os GPs da Holanda e de San Marino, por exemplo. 
 
Para 2015, a Ducati foi para a pista com a GP15, uma moto que leva a assinatura de Dall’Igna e que conseguiu solucionar a dificuldade que os pilotos tinham para colocar a Desmosedici na curva. Ainda assim, os resultados não foram dos mais incríveis.
 
Desta vez, entretanto, a força do motor desmodrômico fez a diferença naquele que já é o circuito mais rápido do calendário da MotoGP.

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