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Sem volante e com laranja diferente, erro em marcha e até em medidas: o desastre que tirou a McLaren da Indy 500

Fernando Alonso e a McLaren sofreram uma das derrotas mais vexatórias da história dos mais de 100 anos das 500 Milhas de Indianápolis. Eliminados no Bump Day agora é hora de recolher os cacos e entender o que aconteceu. Desde pintura infinita até falta de volante e passando por sensores insanos, o diretor-esportivo Zak Brown deu uma boa ideia do que aconteceu no fracasso da incursão norte-americana

Grande Prêmio / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro / GABRIEL CURTY, de São Paulo
O que deu errado? É a primeira pergunta a ser feita sempre que um vexame de grandes proporções se apresenta frente e alguém ou alguma instituição que preza por uma história gloriosa ou um projeto imponente. Quando Kyle Kaiser completou a quarta e última volta lançada no oval de Indianápolis mais ou menos às 18h (de Brasília) do último domingo, a pergunta se apresentou necessária para a McLaren, eliminada com Fernando Alonso e tudo no Bump Day da edição 2019 da Indy 500. Fora do grid para uma equipe sem qualquer patrocinador e que dois dias antes viu o único carro ser despedaçado no muro, como a Juncos, e para outra que jamais havia disputado uma corrida sequer fora de circuitos de areia, a Clauson-Marshall. O que deu errado?
 
Parte desta resposta estava óbvia. A McLaren escolheu a Carlin como equipe a qual se associar. Um time novo no automobilismo norte-americano e com pouca vivência em ovais, a equipe de origem inglesa teve os três eliminados do Bump Day - contando a McLaren, claro, para quem vendeu um de seus carros. Mas havia mais a aparecer, evidentemente. 
 
Esta segunda-feira (20) começou a expor os enormes buracos deixados nos últimos meses. Ainda pela manhã, a notícia que surgiu dava conta que Robert Fernley, designado como chefe do projeto da McLaren para a Indy, havia sido demitido horas depois do vexame. Em entrevista à agência de notícias AP, o diretor-executivo Zak Brown trouxe novas - e estarrecedoras - informações sobre o que deu errado. 
McLaren trabalha no carro de Alonso em semana que marcou eliminação no Bump Day (Foto: Indycar)
Voltado para a Fórmula 1, Zak Brown - e o diretor-esportivo Gil de Ferran - deixaram Fernley encarregado do que aconteceria nos Estados Unidos. O resultado foi catastrófico. Segundo Brown, por exemplo, o volante do carro foi conseguido por ele próprio junto à Cosworth apenas na semana anterior aos primeiros testes, ainda em abril no oval do Texas. Daí em diante, caos completo.
 
"Não chegamos arrogantes, acho que estávamos despreparados. Não merecíamos estar na corrida e é nossa própria culpa. Não é como se estivéssemos dado nosso melhor. Nós derrotamos a nós mesmos", afirmou.
 
"Não fomos para a pista até 12h [3h após o princípio do dia de testes no Texas], nosso volante não ficou pronto em tempo, isso é falta de preparação e habilidade para organizar um projeto. Zak Brown não deveria estar procurando volantes", apontou em distante terceira pessoa.

 
As coisas iriam piorar. O carro comprado pela McLaren junto à Carlin para ser o reserva em Indianápolis chegou laranja, mas não com o laranja-papaia tradicional da McLaren. Após o teste do Texas, voltou para a fábrica para ser pintado apropriadamente. Uma questão estética, sim, mas também de marketing e publicidade. 
 
O local onde o carro seria pintado ficava a uma distância de 30 minutos do IMS, mas continuou lá por mais de um incrível mês. Quando Alonso bateu o carro titular, o construído pela McLaren, na tarde da última quarta-feira, o outro carro continuava na fila da pintura. A negligência fez com que a McLaren perdesse praticamente dois dias inteiros de pista, uma vez que a quarta-feira foi curta e a quinta-feira acabou cedo por conta da chuva - a McLaren tinha planos de entrar na pista para a hora final, mas o treino foi parado cerca de 30 minutos antes disso.
 
Um outro problema era a própria Carlin. Ao fechar com a McLaren, o time tinha dois carros confirmados para a Indy 500: Max Chilton e Charlie Kimball. Mas a contratação de Pato O'Ward, fruto de uma oportunidade após a derrocada da situação na Harding, aumentou a operação de três para quatro carros. A McLaren acabou escanteada, e Brown sai dos Estados Unidos com a sensação de que demorou a se envolver.
 
"Estava claro que a Carlin não era capaz de ter três carros e ainda o nosso", admitiu.
 
"Eu deveria ter ficado mais próximo da Indy, mas não poderia nunca comprometer a F1. No primeiro teste, quando chegamos um pouquinho atrasados para acompanhar, foi ali que perdemos a classificação. Não despertamos na hora certa, poderíamos ter nos recuperado depois daquele primeiro teste. Fico bravo comigo mesmo por não ter seguido meu instinto e acompanhado isso de mais perto", seguiu.
Fernando Alonso foi eliminado no Bump Day das 500 Milhas de Indianápolis (Foto: Indycar)
Na pista, os problemas foram se multiplicando. Um problema elétrico no primeiro teste em Indianápolis custou um emprego de um dos funcionários do time, mas esteve longe de ser o único defeito do carro. Faltou velocidade, novos problemas mecânicos surgiram e aí veio a batida de Alonso no TL2.
 
O carro desenvolvido pela Carlin demorou para ser adequado ao que queria a McLaren e a Fast Friday foi abaixo do esperado. Na classificação, não havia grande perspectiva inicial, mas a primeira tentativa não foi nada ruim, visto que lá tinha um furo no pneu do espanhol que, segundo Brown, a equipe não detectou por estar usando um sensor errado.
 
No segundo dia de classificação, após Gil e Brown correrem pelo paddock atrás de ajuda, um erro nas medidas prejudicou um acerto que era totalmente novo e Alonso quase nem testou no treino livre antes da decisão da vaga.
 
"Gil e eu fomos até o motorhome e dissemos ao Fernando que iríamos com um acerto totalmente novo, se ele se sentia confortável. E ele topou", contou.
Carro de Alonso após acidente nos treinos livres em Indianápolis (Foto: Indycar)
"Nós tínhamos um carro para 229 mph, mas estávamos a 227.5 mph, quase conseguimos mesmo assim. A gente estava muito ansioso, tinha o quê de heroísmo na tentativa que fizemos. Não quero que o mundo ache que nós da McLaren somos um bando de idiotas, nós temos estrelas aqui. Me sinto numa obrigação com fãs e patrocinadores. Não cumprimos o prometido e precisamos de mais do que pedidos de desculpas. Vai ter repercussão negativa e vamos aprender com isso. Espero que as pessoas gostem do nosso esforço, somos racers, Fernando é uma estrela e não vamos fugir. Queremos voltar", prometeu.
 
O que deu errado? Muito mais que as voltas lançadas de Alonso. 



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