F1

Opinião GP: Números não traduzem grandeza de Hamilton no esporte

Hexacampeão de Fórmula 1, Lewis Hamilton se tornou muito maior que seus feitos e números nos livros de recordes. Aos 34 anos, o inglês pode dizer que construiu uma carreira sólida no esporte. Tem o respeito de seus pares, a admiração de uma nova geração de pilotos, mas também soube pensar ‘fora da casinha’, teve coragem e foi além dos limites de pista

GRANDE PRÊMIO / EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba

"COMO EU DEVO ME SINTIR, ME DIZ? Eu me lembro de assistir a esse esporte quando era mais jovem. É estranho assistir e ver alguém na TV e agora ser a pessoa na TV e fazer algo parecido com o que vi em Ayrton (Senna) e em Michael (Schumacher) ".
 
O homem que chegou ao sexto título do mundo na F1 pode se orgulhar de ser o melhor de sua geração. Pode bater no peito e falar de poles e corridas espetaculares, de temporadas de quase nenhum erro, de recordes e de dificuldades superadas. O homem que agora é o segundo maior vencedor da história construiu uma carreira amplamente vitoriosa, de decisões acertadas e cercada das melhores pessoas. Mas, mesmo que o hexacampeonato seja extraordinário, ainda é difícil determinar o que é ter Lewis Hamilton hexacampeão.
 
Por tudo que o inglês fez e conquistou ao longo dos últimos 12 anos, a tentação de posicioná-lo à frente dos grandes é enorme e natural. Afinal, os números e o desempenho estão aí para comprovar que ele merece figurar no mais alto posto e na companhia dos principais nomes do esporte. Mas só números traduzem, de verdade, o que Hamilton significa para esse esporte? É, de fato, um retrato fiel do que o inglês representa? E como ele mesmo pergunta acima, como deve se sentir sobre isso tudo?
Lewis Hamilton foi ao pódio para se tornar campeão de 2019 na F1 (Foto: Mercedes)
Talvez seja preciso ir além para responder a essas questões. Hamilton está sob os holofotes desde o dia 1 na Fórmula 1. A história do britânico é sem precedentes e conhecida de todos. Foi descoberto por Ron Dennis ainda garoto, enquanto seu pai, Anthony, tinha dois empregos para manter a família e o início de carreira do filho. Hamilton cresceu tendo de ser o melhor e superando barreiras e preconceitos, como bem disse o chefe Toto Wolff, lembrando que o piloto “ainda carrega as cicatrizes” do racismo sofrido na infância. 
 
Certamente, essa experiência ajudou a moldar o caráter e a personalidade de Lewis. Mas é bem verdade que o mundo do esporte demorou para ver isso, uma vez que a McLaren blindou o rapaz. Felizmente, Hamilton despertou e não teve opção além de cortar o vínculo com as pessoas que o ajudaram chegar à F1 e a se tornar campeão apenas em seu segundo ano no Mundial. Mas assim ele o fez, e foi cuidar da própria vida. Agradeceu ao apoio incondicional, mas também autoritário do pai. E essa talvez tenha sido a decisão mais corajosa de sua carreira, porque foi a partir dela que a carreira mudou de rumo. 
 
Assinou com a Mercedes, quando ninguém tinha lá muita fé. Acreditou nas palavras de Niki Lauda e tomou as rédeas. Elevou o nível do sarrafo, começou a pilotar como nunca, aproveitando todo o talento. Cercou-se das pessoas certas e desandou a vencer. Ganhou nada menos do que cinco títulos em seis anos, virou o maior recordista de poles, conquistou mais vitórias do que qualquer um. Sofreu derrotas doídas no meio do caminho, mas ainda assim se reergueu, como o título do poema que traz no capacete e no que parecer viver. 
Lewis Hamilton celebra o sexto título do mundo em Austin (Foto: Mercedes)
Diante dos números, então, é difícil não se render a tentação. Hamilton se tornou um piloto completo do ponto vista técnico. Erra muito pouco e aprende com os deslizes. Sabe sair de situações de iminente fracasso para triunfos. Não se abate mais e não deixa que nada o abale. E no topo de tudo, ainda tem a perfeição em forma de equipe. A combinação com a Mercedes é rara, mas bem cuidada. O resultado: é a Era Hamilton.
 
Só que essa era ultrapassa as pistas. Hamilton se posicionou diante do esporte. Assumiu um estilo de vida bem diferente. Atreveu-se a ser mais que um piloto. Não teve vergonha de cair na farra – e voltar mais forte. Aventurou-se no mundo artístico e da moda, virou celebridade, viajou o mundo num jato particular. Depois, se deu conta que há questões maiores. Passou a se preocupar com o meio-ambiente e questões humanitárias. Mudou seu estilo de vida de novo, tornou-se vegano. 
 
E tudo isso ainda sob os holofotes, dando a cara a bater. Mas não recua e usa bem sua posição para defender o que acredita ser certo.

"Eu também estou lutando com muitas coisas diferentes e lutando com alguns demônios. E tentando me certificar de que estou constantemente crescendo como pessoa. Quando acordo, olho no espelho e estou tentando me levantar, eu digo: 'Sim, você pode fazer isso’. É apenas um incentivo a si mesmo e estou só tentando mostrar que as pessoas não entendem que todos somos semelhantes de várias maneiras."

A coragem é a marca desse homem hexacampeão e, portanto, os números, embora falem muito sobre Hamilton, não o definem. A exatidão e a frieza dos números não traduzem sua grandeza e nem aquilo que significa e significará para a Fórmula 1.

O Opinião GP é o editorial do GRANDE PRÊMIO que expressa a visão dos jornalistas do site sobre um assunto de destaque, uma corrida específica ou o apanhado do fim de semana.

Em duas semanas, a F1 disputa sua 20ª e penúltima etapa da temporada 2019, o GP do Brasil, em Interlagos. O GRANDE PRÊMIO acompanha tudo AO VIVO e em TEMPO REAL.
 
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