F1

Opinião GP: após ficar 43 pontos à frente de Hamilton e perder liderança, Rosberg prova que não tem DNA de campeão

Convenhamos: um piloto que tem o melhor carro do grid e tem a chance de abrir nada menos que 43 pontos de vantagem para o seu maior rival e vê ruir tal diferença como um castelo de cartas não merece mesmo ser campeão do mundo. Ao ver Lewis Hamilton vencer cinco das seis últimas corridas da temporada, culminando com o triunfo no último domingo na Hungria, Nico Rosberg perdeu sua maior chance de chegar ao Olimpo da F1

Warm Up / FERNANDO SILVA, de Sumaré

O GP DA HUNGRIA MOSTROU ao mundo que Nico Rosberg não tem mesmo DNA de campeão do mundo. Lewis Hamilton tinha em mente que só teria uma chance para passar o alemão e vencer no último domingo (24) em Budapeste: na largada. Sabendo disso, Nico deveria ter jogado duro para se manter à frente, mas fracassou miseravelmente em sua missão. Desde a primeira volta, Lewis só foi mesmo superado durante as janelas para troca de pneus e confirmou uma vitória emblemática. Ao fim da primeira metade da temporada, Hamilton virou um jogo que lhe parecia perdido: dos 43 pontos de vantagem que Rosberg ostentava após o GP da Rússia, o tricampeão empreendeu uma reação de campeão, emendou cinco vitórias em seis corridas e se colocou seis pontos à frente após 11 corridas disputadas.
 
Se a reação de Hamilton, iniciada a partir do GP de Mônaco, é digna de campeão, tudo o que o alemão mostrou desde então foi justamente o contrário: filho de Keke Rosberg, Nico já provou ser bom piloto, mas não tem pedigree de campeão. Por mais que Lewis seja melhor, um piloto que consegue perder um ‘caminhão’ de vantagem assim, desta forma, não merece mesmo alcançar o Olimpo da F1.
 
É preciso ser justo. As quatro vitórias consecutivas de Rosberg no início de 2016, ainda que bastante sonantes, foram irreais e logradas na esteira de erros e de azares de Hamilton, que parecia estar no seu universo particular e aparentando a falta de motivação que já vinha desde quando confirmou seu tricampeonato em Austin no ano passado. Na Austrália, o britânico errou na largada; no Bahrein, foi abalroado pelo carro de Valtteri Bottas; na China e na Rússia, foi afetado por problemas na unidade de potência do seu carro. Quando tudo se encaixou e as condições foram iguais para os dois, Lewis sobressaiu e mostrou que é muito melhor que seu companheiro de equipe.
Enquanto Hamilton arranca rumo ao tetra, Rosberg só mostra que não tem DNA de campeão (Foto: Getty Images)

A atual fase de Hamilton lembra muito sua arrancada pelo título em 2014. Sempre é válido relembrar aquele momento porque mostrou, como mostra agora, o quanto Lewis se fortalece e é quase imbatível em tais condições. Após o GP da Bélgica daquele ano, Rosberg abriu 29 pontos de vantagem perante o britânico. Aí Lewis usou e abusou dos requintes de crueldade para trucidar seu adversário: nas sete corridas seguintes, foram seis vitórias e a confirmação do título em Abu Dhabi.
 
O cenário é bem parecido com o desta temporada. Com uma diferença: apesar de Hamilton estar, como ele mesmo disse, “mentalmente mais forte”, trata-se de um campeonato mais longo. Ainda restam dez corridas pela frente, a começar pelo GP da Alemanha no próximo fim de semana. E o retorno de Hockenheim ao calendário representa um dos poucos trunfos de Rosberg para se impor e mostrar que ainda está vivo no campeonato. 
 
Mas, em termos práticos, sua última chance está na  punição de dez posições no grid de largada (talvez, até 20) que fatalmente Hamilton vai sofrer depois que passar a usar o sexto motor. Cedo ou tarde, isso vai acontecer.
A escalada de Hamilton faz Rosberg depositar suas fichas na punição ao britânico por usar o sexto motor no ano (Foto: Getty Images)
Chegar às férias de verão em uma situação mais confortável no campeonato e com vitória em casa pode valer muito como um impulso a mais visando a segunda metade da temporada, em pistas onde Hamilton é muito forte. É só observar os dois últimos anos da F1.
 
De qualquer forma, não soa devaneio nenhum dizer que a vitória no último domingo na Hungria foi um passo fundamental para Hamilton em busca do tetracampeonato, já que nada parece detê-lo. No momento, Lewis se mostra quase intransponível, enquanto Rosberg, fragilizado diante de mais um revés perante o rival, tem poucas cartas na mesa para continuar no jogo. A partir de agora, toda corrida é ‘tudo ou nada’ para o alemão, que vê escoar pelo ralo sua maior chance de se tornar campeão mundial de F1.
 
A grande ‘remontada’ da Red Bull
 

Apesar de todo o domínio e das dez vitórias e dez poles da Mercedes em 11 corridas no ano, a Red Bull aparece como a grande equipe do ano. A temporada passada foi terrível para os taurinos: embora tivessem exibido a capacidade de sempre na construção de um bom chassi, simplesmente faltava desempenho e confiabilidade ao motor Renault. Veio a crise, o quase divórcio com a Renault e a ameaça incisiva de retirar suas duas equipes da F1 se não contasse com uma unidade de potência confiável para 2016. O jogo duro não comoveu Ferrari e Mercedes e, no fim das contas, ficou tudo como antes, ou quase.
 
A Renault melhorou muito o trabalho com seu motor que, se ainda não está ao nível da Mercedes, permite à Red Bull ser muito mais forte e capaz de lutar de igual para igual com a Ferrari. A escuderia de Maranello começou 2016 como a segunda força, enquanto os taurinos tinham um discurso mais modesto, de avançar durante o segundo semestre. Mas o ótimo conjunto chassi+motor vem permitindo à equipe de Milton Keynes uma incrível reação depois de uma temporada passada cheia de dificuldades e sem vitórias.
O ótimo desempenho da Red Bull tem feito Ricciardo sorrir ainda mais (Foto: Red Bull)
Claro, a chegada de Max Verstappen ao time, ainda que tenha sido polêmica, se mostrou extremamente acertada. Ponto para Helmut Marko e Christian Horner, que ao unir o holandês a Daniel Ricciardo, formaram uma excelente dupla de pilotos. Daí em diante, a Red Bull só cresceu e passou a ameaçar seriamente a Ferrari no posto de segundo melhor time da F1.
 
Os números estão aí e não mentem: até o GP da Rússia, a Ferrari tinha 76 pontos no campeonato, ao passo que os taurinos estavam 19 atrás. A diferença da Red Bull para a Williams era muito pequena, apenas seis pontos. Mas tudo mudou a partir do GP da Espanha e da vitória de Verstappen. 
 
Ao mesmo tempo em que a Ferrari começou a perder terreno, muito em razão da falta de confiabilidade (câmbio, principalmente), a Red Bull cresceu e emendou cinco pódios em sete corridas. Nas três últimas, Max foi segundo lugar na Áustria e na Inglaterra, enquanto Ricciardo foi o terceiro no último GP da Hungria.
 
Não à toa, a diferença caiu para apenas um ponto: 224 x 223. A proximidade de uma equipe que até meses atrás nem era considerada uma ameaça à Ferrari acendeu de vez o alerta vermelho em Maranello. A possibilidade de ser derrotada pela Red Bull pode abrir uma crise na equipe italiana. O time começou o ano sonhando em superar a Mercedes, adotando um discurso ousado e até arrogante, mas agora terá de abrir seus olhos para quem vem logo atrás. 

Opinião GP é o editorial do GRANDE PRÊMIO que expressa a visão dos jornalistas do site sobre um assunto de destaque, uma corrida específica ou o apanhado do fim de semana de automobilismo.

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