F1

Meditação e medo do fracasso: como Mercedes se motiva para seguir dominando F1

Em entrevista concedida à emissora BBC, Toto Wolff revelou alguns segredos que fazem com que a Mercedes continue motivada mesmo depois de ter vencido tudo na F1 desde 2014. Com uma filosofia de ter zero de política interna, aprender com as derrotas e até meditação, o austríaco lidera um time que busca sempre algo a mais: “Você precisa acordar pela manhã com um senso de propósito e objetivos claros, e é isso que te faz seguir”

Grande Prêmio / Redação GP, de Sumaré
Muito mais difícil do que chegar ao topo é nele permanecer. E a Mercedes vem alcançando êxito na sua missão de ser a melhor equipe do Mundial de F1 de forma seguida desde 2014, ano que inaugurou a era dos motores híbridos. Mesmo ao longo de mudanças significativas no regulamento técnico, como há dois anos, a escuderia chefiada desde 2013 por Toto Wolff permanece como a dominante do esporte. Mas como manter a motivação e a gana de uma equipe formada por mais de mil funcionários para continuar vencendo dia após dia?
 
Em entrevista concedida à emissora britânica BBC, o austríaco de 47 anos ressaltou que a Mercedes persegue um recorde que hoje pertence à Ferrari. Entre 2000 e 2004, a escuderia de Maranello empreendeu uma dinastia marcada por cinco títulos do Mundial de Construtores e outros cinco do Mundial de Pilotos, todos com Michael Schumacher.
A Mercedes caminha para ser a equipe mais vitoriosa da história da F1 (Foto: Mercedes)
Desde 2014, a Mercedes venceu nada menos que 82 GPs, conquistou todos os Mundiais de Construtores neste período, viu Lewis Hamilton faturar quatro dos seus cinco títulos, além de festejar a glória alcançada por Nico Rosberg em 2016. Nesta temporada, Mercedes e Hamilton caminham a passos largos para o sexto título mundial, cenário que, se confirmado, vai colocar a escuderia sediada em Brackley como a mais bem-sucedida da história.
 
Para Toto Wolff, a maior motivação para a Mercedes é continuar vencendo. “Os objetivos certos mantém você motivado e energizado. Conquistar o primeiro campeonato foi uma enorme montanha que nós queríamos conquistar. E então queríamos provar que conseguiríamos fazer pela segunda vez”, recordou.
 
O chefe da Mercedes destacou a transição para o novo regulamento técnico a partir de 2017, que trouxe à F1 carros mais largos, robustos e com maior downforce nas curvas. Foi uma mudança significativa no design dos carros. A Mercedes permaneceu no topo da categoria porque, na visão de Wolff, tinha a “ambição de ser a primeira equipe a vencer na esteira de uma mudança nas regras”.
 
Para 2019, a motivação para continuar no topo vai além. “É o desejo de bater o recorde de todos os tempos da Ferrari, que significa seis títulos mundiais de Pilotos e Construtores na sequência”, comentou o austríaco. Que deixa evidente a sua filosofia de trabalho. 
Para a Mercedes, muito mais do que saber vencer, é preciso aprender com as derrotas (Foto: Mercedes)
“Você pode ver que o objetivo final de vencer o título sempre permaneceu o mesmo, mas houve uma pequena nuance que nos motivou. Você precisa acordar pela manhã com um senso de propósito e objetivos claros, e é isso que te faz seguir”, explicou.
 
Entretanto, fazer com que a motivação siga inabalável mesmo em meio a um esporte de altíssimo nível e às vezes até cruel como a F1 exige muito esforço. “Permanecer energizado, bem física e mentalmente, não é comum”, disse Wolff, que revelou um dos segredos que ajudam os funcionários da Mercedes a permanecerem motivados. 
 
“Realizamos meditação para toda a nossa equipe, de mais de mil pessoas. Você precisa utilizar esses ganhos mínimos para tirar o máximo desse grupo de pessoas”, contou o dirigente, que se diverte ao lembrar quando engenheiros da equipe começaram a fazer parte das sessões.
 
“Tem uma história engraçada. Faço meditação há anos e sou um praticante ativo. Mas quando começamos, escolhemos um grupo onde acreditávamos que teríamos alguns dos mais teimosos, engenheiros durões que achavam que isso era algum tipo de exercício para abraçar árvores. Colocamos todos eles em uma sala, cerca de uns 20 deles, e você vai ficar surpreso que depois desse curso completo, que foram seis ou sete sessões, eles fizeram tudo até o fim e melhoraram muito seu bem-estar mental e seu desempenho”, relatou.
 
“Todos os 20 sentados em círculo cantando 'om'?”, indagou a reportagem da BBC.
 
“Sim, na verdade, abrimos um meio círculo na primeira sessão e começamos fechando os olhos e abrindo as palmas das nossas mãos. Não me atrevi a acordar porque senti que seria uma situação divertida e não conseguiria me segurar. Mas devo dizer que isso aumentou tremendamente minha qualidade de vida e o feedback que recebemos disso foi muito positivo”, relembra Wolff.
 
Outro fator psicológico que a Mercedes costuma trabalhar para manter acesa a chama da vontade de vencer entre seus funcionários é o aprendizado a cada derrota sofrida. Para superar os raros revezes sofridos nos últimos anos, os profissionais da equipe atuam com uma filosofia de intensa comunicação interna e que permite um maior envolvimento de todos no dia-a-dia.
 
A Mercedes trabalha com um psiquiatra forense, Ceri Evans, que trabalhou ao lado da seleção neozelandesa de rúgbi, os All Blacks. O mantra do profissional é “veja, diga, corrija”, o que, na visão de Toto Wolff, “encoraja a todos da organização a falar e apontar nossas falhas e deficiências, e ele tem sido muito instrumental em nos fazer bem-sucedidos”. 
 
“Acho que as pessoas gostam de trabalhar. Elas são bem incentivadas, mas isso não necessariamente significa que tudo tem relação com o dinheiro. É também sobre reconhecimento e ter um lugar onde você curte estar e as interações e relacionamentos que você constrói na equipe. E acho que esse tem sido um dos pontos fortes dentro da equipe”, disse Wolff.
 
“É um lugar onde não há política interna. Integridade e honestidade são mais importantes. É um ambiente onde as pessoas se atrevem a falar. Nós encorajamos as pessoas a emitirem suas opiniões porque isso é importante para seu desenvolvimento próprio. Então, no geral, um envolvimento positivo em um mundo onde as coisas nem sempre são muito engraçadas”, explicou.
Desde 2014, a Mercedes domina a F1 (Foto: AFP)
O chefe da Mercedes lembra que cada derrota sofrida é muito mais sentida e vivida do que as várias vitórias ao longo dos últimos anos. O dirigente atua para que o medo do fracasso seja um impulso na motivação de toda a equipe. 
 
“Os dias em que erramos são os dias em que mais aprendemos. Você nunca deixa uma pista com uma grande vitória dizendo: ‘Por que diabos vencemos?’. Mas você deixa a pista dizendo: ‘Por que diabos nós perdemos?’. Na verdade, a análise é muito mais profunda e intensa quando você perde. A dor da derrota dura muitos dias, provavelmente até a última corrida. O prazer de vencer some na manhã seguinte à corrida. E é isso que nos manteve no caminho”, finalizou Wolff, que lidera a Mercedes rumo ao recorde de títulos consecutivos do Mundial de F1.

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