F1

Guerra entre Vettel e Leclerc põe Ferrari frente a 1ª grande rivalidade desde 1982

Desde o embate entre Gilles Villeneuve e Didier Pironi, há quase 40 anos, a Ferrari não se deparava com uma guerra interna entre seus pilotos. A crescente rivalidade entre o tetracampeão Sebastian Vettel e o jovem Charles Leclerc mostra, justamente no seu melhor momento técnico nos últimos anos, uma equipe que desaprendeu a encarar e resolver seus conflitos

Grande Prêmio / FERNANDO SILVA, de Sumaré
Conta a história recente da Fórmula 1 que a Ferrari há muito tempo não se depara com uma rivalidade como a que se desenha entre o tetracampeão Sebastian Vettel e o prodígio Charles Leclerc. É possível recordar alguns conflitos internos que marcaram época nos últimos 30 anos, como Ayrton Senna x Alain Prost, Fernando Alonso x Lewis Hamilton e, nesta década, Hamilton x Nico Rosberg. Conflitos que renderam manchetes, mudaram carreiras e deixaram suas marcas. Mas há quase 40 anos a escuderia de Maranello não vive nada do tipo, muito por conta da sua filosofia de ter um grande capitão e um escudeiro ao lado. 
 
A batalha Vettel x Leclerc traz à tona novamente a efêmera rivalidade travada entre Gilles Villeneuve e Didier Pironi, em 1982. O canadense era um grande ídolo dos tifosi e tinha uma relação amistosa com Pironi. Relação que ruiu como um castelo de cartas no famoso GP de San Marino de 1982. Villeneuve tomou a liderança da corrida depois que René Arnoux enfrentou a quebra do motor da sua Renault, e Pironi vinha logo atrás. A ordem da Ferrari era uma só: que os dois trouxessem os carros para casa sem problemas.
 
Só que Pironi surpreendeu o companheiro de equipe e iniciou uma batalha pela vitória em Ímola. Os dois pilotos da Ferrari travaram uma disputa intensa pela ponta, que acabou ficando com o francês. Gilles se sentiu traído por Pironi e nunca mais falou com aquele que se tornava seu principal adversário. Só que a rivalidade sequer se sustentou por um desses acasos do destino: Villeneuve morreu tragicamente 13 dias depois durante os treinos para o GP da Bélgica, em Zolder, justamente quando lutava para superar o tempo de Pironi.
Sebastian Vettel e Charles Leclerc vivem conflito interno na Ferrari (Foto: Ferrari)
Desde então, a mais tradicional das equipes da Fórmula 1 jamais teve uma grande rivalidade entre seus companheiros de equipe. Neste período, por exemplo, Michael Schumacher reinou soberano como #1 em Maranello, Kimi Räikkönen conviveu bem com Felipe Massa e, mesmo tendo uma personalidade controversa e explosiva, Fernando Alonso tinha sobre si todas as atenções e jamais chegou a ser ameaçado. Vettel, quando foi contratado a peso de ouro em 2015 justamente para substituir Alonso, chegou para dar sequência ao legado de Schumacher e raramente foi pressionado pelo veterano Räikkönen.
 
Só que ninguém esperava que o tetracampeão, um dos pilotos mais vitoriosos do seu tempo, seria confrontado por um jovem de 21 anos em apenas sua segunda temporada na F1. A forma como Leclerc se impôs na Ferrari e conseguiu superar seguidamente seu companheiro, a ponto de, nas suas atitudes, reivindicar o posto de #1 da equipe, surpreendeu não apenas Vettel, mas a própria cúpula da Ferrari e ao mundo do esporte a motor como um todo.

O monegasco jamais escondeu o descontentamento quando ouvia ordens da equipe para segurar o ritmo e não passar Vettel, por exemplo. Mas a mudança de atitude de Charles veio justamente no momento em que a Ferrari vive sua melhor fase técnica nos últimos anos.
 
O ponto de virada dentro da Ferrari a respeito da relação entre seus pilotos foi, novamente, um acordo quebrado. Leclerc teria de dar vácuo a Vettel no Q3 do GP da Itália, mas o monegasco jamais se colocou à frente do companheiro de equipe e, para piorar, o cronômetro zerou antes que fosse possível abrir a volta. Seb reclamou de um pacto que não fora cumprido, mas Charles foi perdoado graças à vitória em Monza, algo que um piloto da Ferrari não conseguia desde Alonso, em 2010.
A 'guerra civil' entre Alonso e Hamilton implodiu a McLaren na temporada 2007 (Foto: Reprodução)
 
Na primeira parte — antes das férias de verão — da temporada, o placar entre Vettel e Leclerc era equilibrado nas classificações, 6 x 6, mas com ampla vantagem do alemão nas corridas: 8 x 4. Só que o monegasco cresceu justamente no período em que a Ferrari iniciou sua arrancada no campeonato e emendou nada menos que quatro poles seguidas e venceu duas vezes, contra uma do alemão.
 
Com o ímpeto de jovem e os últimos resultados, Charles se sente como #1 da Ferrari, e prova disso são os últimos resultados. Só que é Vettel quem ainda tem na prática tal status, como mostra seu salário, de mais de R$ 150 milhões por ano, contra ‘apenas’ R$ 13 milhões do monegasco.
 
Eis o grande dilema que a Ferrari vai ter de resolver. Em meio aos rumores de que Vettel pode até deixar a equipe caso o ambiente interno não melhore, Mattia Binotto vai ter pela frente seu maior desafio enquanto chefe da escuderia de Maranello: aproveitar o grande momento técnico na pista para finalmente lutar pelo título contra a Mercedes — e Lewis Hamilton em 2020 — e também deixar o clima nos boxes mais harmônico. Mas como?
 
Voltemos à história recente das rivalidades entre companheiros de equipe na F1. Em poucos dias, o mundo do esporte vai recordar os 30 anos do ápice da guerra civil na McLaren envolvendo entre Ayrton Senna e Alain Prost, que jogou seu carro para cima do brasileiro na chicane Casio, em Suzuka. Prost encerrou ali sua participação no GP do Japão de 1989, Senna teve a ajuda dos fiscais de pista para voltar a acelerar, foi aos boxes, trocou a asa dianteira avariada, ultrapassou Alessandro Naninni e ainda ganhou a corrida, mas foi desclassificado pela FISA, então chefiada pelo francês Jean-Marie Balestre. Prost já tinha seu contrato assinado com a Ferrari para 1990.
Embate com Hamilton fez Rosberg se aposentar depois de conquistar o título da F1 em 2016 (Foto: Reprodução)
A rivalidade entre Alonso e Hamilton lembra um pouco o que a F1 proporciona atualmente com Vettel e Leclerc. Em 2007, Fernando chegou à McLaren contratado a peso de ouro depois de ter sido bicampeão do mundo com a Renault, mas, diferente dos anos em que reinou soberano na equipe anglo-francesa, na McLaren o espanhol passou a ter um estreante atrevido e que não se viu em momento algum como #2. 
 
Hamilton surpreendeu ao andar no mesmo ritmo de Alonso e, em algumas vezes, até o superou, engrossando a guerra interna, que teve seu auge na classificação do GP da Hungria: Alonso parou para trocar pneus, mas continuou no pit por um bom tempo, o bastante para atrapalhar Hamilton e impedir o jovem britânico de fazer uma tentativa de volta para brigar pela pole. Os dois brigaram até a última corrida pelo título e terminaram empatados, mas quem festejou mesmo foi Räikkönen, o último campeão com a Ferrari. Hamilton continuou na McLaren, enquanto Alonso deixou a equipe britânica e voltou para a Renault.
 
A mais recente rivalidade entre companheiros de equipe antes de Vettel x Leclerc durou entre 2014 e 2016. A batalha entre Hamilton e Nico Rosberg deixou grandes cicatrizes na Mercedes e levou a uma mudança importante na filosofia da equipe. Depois que venceu a batalha mental com Hamilton e conquistou o título, Rosberg surpreendeu o mundo do esporte e se aposentou cinco dias após ser coroado campeão em Abu Dhabi. A Mercedes, justamente para evitar o ambiente bélico entre seus pilotos, optou por contratar Valtteri Bottas para o lugar de Nico, deixando de lado um jovem ávido por vitórias e títulos, Pascal Wehrlein. É provável que Toto Wolff tenha preferido manter a harmonia da equipe ao renovar por mais um ano o contrato do finlandês e ver partir o promissor Esteban Ocon para a Renault.
 
Sendo assim, a história conta que um dos pilotos envolvidos em uma guerra interna dificilmente permanece por muito tempo na equipe. Com Vettel na fase final da carreira e sequencialmente tomando tempo de um Leclerc, que caminha a passos largos rumo ao estrelato, parece cada vez mais claro quem vai ser a grande aposta da Ferrari para os próximos anos.
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