Endurance

Coluna Parabólica, por Rodrigo Mattar: A maior 24h de Le Mans da história?

A julgar pelo que temos na pista, principalmente na classe principal, a LMP1, a disputa promete ser espetacular entre os times de fábrica. A Audi ganhou recentemente a companhia da Toyota, após perder a referência da Peugeot como grande rival. Agora a brincadeira ficou muito mais séria: chegou a Porsche. E em 2015, vem a Nissan. Um autêntico embate Alemanha x Japão

Warm Up / RODRIGO MATTAR, do Rio de Janeiro
Quando André Lagache e René Leonard percorreram 128 voltas e pouco mais de 2.200 km a bordo de um Chenard Walcker Sport de 3 litros de capacidade cúbica, para ganhar uma prova de 24 Horas disputada no longínquo ano de 1923, ninguém poderia prever que tal evento se tornaria a maior prova de resistência do planeta. Uma corrida que sobreviveu à II Guerra Mundial para, desde 1949, nunca mais deixar de ser realizada.

O evento passou por diversas crises — econômicas, do petróleo e também de identidade da própria corrida, motivadas principalmente por esdrúxulas mudanças de regulamento. Mas as 24 Horas de Le Mans estão aí, à beira de sua 82ª edição, que promete ser a maior de toda a sua história.

A julgar pelo que temos na pista, principalmente na classe principal, a LMP1, a disputa promete ser espetacular entre os times de fábrica. A Audi ganhou recentemente a companhia da Toyota, após perder a referência da Peugeot como grande rival. Agora a brincadeira ficou muito mais séria: chegou a Porsche. E em 2015, vem a Nissan. Um autêntico embate Alemanha x Japão.
Essa tem tudo para ser a maior edição da história de Le Mans (Foto: Divulgação)
Esse embate dar-se-á sob o signo da sustentabilidade, que norteia as regras do WEC e das provas longas. A economia de combustível, somada ao uso de energia reaproveitada dos freios e das turbinas dos motores, dita a dança de uma prova que vai ter muita guerra de bastidores, muita estratégia, velocidade e, sobretudo, inteligência.

Derrotada nas duas primeiras corridas do Mundial de Endurance pela Toyota, a Audi tem diploma de campeã em Le Mans. Onze títulos nos últimos 13 anos não deixam mentir. Inclusive, ganhou quando não tinha o melhor carro: em 2005, muitos recordam que os Pescarolo Judd eram mais competitivos e que o ACO teria mudado as regras para finalmente dar ao velho Henri uma vitória que sempre teimou em lhe escapar das mãos, para se somar aos quatro triunfos que o ídolo francês conquistou na pista.

Porém, faltou aos pilotos do time gaulês o que sobrava na turma da Audi: inteligência. Com um carro menos rápido, mas muito mais constante, Tom Kristensen bateu à época o recorde de vitórias de Jacky Ickx, tornando-se um mito de Le Mans. E é ao lado desse mito que um brasileiro — Lucas Di Grassi — tentará a inédita façanha de ganhar a corrida, feito que até hoje só José Carlos Pace (em 1973) e Raul Boesel (em 1991) chegaram perto, completando em segundo lugar.

Sem cancha em Sarthe no que diz respeito a conquistas, a Toyota sabe que esta é uma chance de ouro para tornar possível o sonho da primeira vitória de um construtor japonês desde a zebra monumental que foi o triunfo da Mazda, no mesmo ano de 1991 do 2º lugar do Boesel. Por outro lado, seria terrível para o WEC um terceiro triunfo seguido dos nipônicos. Explico o porque: com pontuação dobrada, Le Mans é a cereja do bolo no calendário do Mundial. Como uma das tripulações – Anthony Davidson/Nicolas Lapierre/Sébastien Buemi – já somou 50 pontos nas duas primeiras provas, caso os três ganhem em Sarthe eles vão para 100 e aí Inês é morta, o campeonato praticamente perde o interesse e quem haveria de gastar uma grana violenta para trazer seus carros a Interlagos com tudo decidido?

Por isso é que uma vitória da Audi para reacender o campeonato ou mesmo da Porsche, para ampliar seu recorde histórico, é que seria o cenário perfeito para uma corrida que promete bastante. Aliás, nunca um retorno foi tão saudado pelas rivais quanto o da Porsche à classe LMP1. Desde o anúncio oficial até agora, raras foram as vezes que não houve homenagens ao pessoal de Stuttgart — e até alguma dose de provocação — especialmente vinda da Audi. Mas uma provocação muito bem-vinda e inteligente, diferente do que se vê no futebol. E mesmo pertencendo ao mesmo grupo — o Volkswagen Auto Group (VAG) —, Porsche e Audi têm filosofias diferentes de trabalho e projetos igualmente distintos. Enquanto Ingolstadt continua com a tecnologia de motores turbodiesel, Stuttgart trouxe um propulsor 2 litros V4 turbo, desenho inédito em propulsores construídos especialmente para a Endurance.

Sim, a Copa do Mundo vai começar. Tem jogo à beça nas televisões e com certeza muitos vão querer ver os embates entre Espanha x Holanda e Itália x Inglaterra. Mas, para quem ama automobilismo, Le Mans é um prato cheio. É só arrumar fôlego para ficar acordado 24 Horas, como o escriba já ficou — mais de uma vez, inclusive — e se deliciar com aquela que promete ser a maior 24 Horas de Le Mans da história.

Até que venha a próxima...