Stock Car
04/06/2013 13:20

“Processo de não cuidar do automobilismo” preocupa pilotos, que cobram mais ação da CBA

A inércia da Confederação Brasileira de Automobilismo ajuda a gerar situações como a do último fim de semana, em Brasília. Na visão dos pilotos Átila Abreu e Cacá Bueno, o erro não foi somente de quem executou mal as reformas no Autódromo Nelson Piquet, mas também de quem as aprovou: “Estava fadado a dar errado”
Warm Up
RENAN DO COUTO, de São Paulo
HUGO BECKER, de Guarulhos
FERNANDO SILVA, de Sumaré



A modernidade e o obsoleto, a extravagância e o abandono contrastam na Asa Norte de Brasília. O Estádio Nacional Mané Garrincha, cuja construção custou R$ 1 bilhão aos cofres públicos, aguarda pela abertura da Copa das Confederações, grande teste para a Copa do Mundo de 2014, no próximo dia 15. No terreno adjacente, o Autódromo Nelson Piquet é um dos vários exemplos de praças esportivas espalhadas pelo país em estado crítico de conservação. Sofrendo com o descaso das autoridades regionais e desportivas, o circuito foi o palco de um verdadeiro vexame no último fim de semana.

Antes da quinta etapa da temporada 2013 da Stock Car, as zebras do autódromo foram reformadas. Elas eram consideradas ruins pelos pilotos. Só que a obra foi muito mal executada, o que ficou evidente nas primeiras horas da manhã de sábado, durante o primeiro treino livre da programação. A atividade durou seis horas, interrompida que foi para a realização de reparos na parte interna da curva, onde uma tampa de bueiro integrante do sistema de drenagem se soltava com os carros passando pelo local, oferecendo risco aos competidores.

Diante da necessidade de dar sequência aos treinos, o paliativo encontrado foi preencher o buraco com terra e proibir os pilotos de utilizarem a zebra na primeira das cinco curvas do anel externo. Horas depois, no treino classificatório, 14 pilotos foram punidos. Não por desrespeitarem o regulamento, mas por causa de um problema na pista. Estivesse o circuito em condições adequadas para a prática do esporte, isso não teria acontecido. E sorte que não choveu, do contrário, a drenagem estaria mais do que comprometida.
No fim das contas, a corrida foi disputada e foi vencida por Cacá Bueno. Porém, o vexame será mais lembrado do que o 31º triunfo da carreira do pentacampeão. Essa talvez seja a única unanimidade de toda a polêmica. 


Falhas nas obras do circuito de Brasília ficaram evidentes no fim de semana (Foto: Luca Bassani)

Chamou a atenção o brado do que hoje é o principal nome do esporte a motor no Brasil, Felipe Massa. Único representante do país no Mundial de F1, o piloto da Ferrari usou a rede social Instagram para disparar contra a Confederação Brasileira de Automobilismo e o Governo do Distrito Federal. “Olha a reforma feita pelo autódromo de Brasília! Vergonha! Isso mostra o quanto temos de melhorar o automobilismo no Brasil. Viu, Governo do Distrito Federal? Viu, CBA?” escreveu. A crítica, neste caso, não parte apenas de um piloto, mas também de alguém que já esteve na figura de organizador (Massa comandou, entre 2010 e 2012, o Racing Festival) e, neste posto, pouco foi apoiado pela CBA.

Em entrevista exclusiva ao GRANDE PRÊMIO, Cleyton Pinteiro, presidente da CBA, afirmou concordar com as críticas feitas por Massa. Ao governo local, não à CBA. “Eu concordo com as críticas dele ao Governo do Distrito Federal. A CBA não é dona do autódromo, não tem poder de não permitir corridas lá, mas de mandar fazer as coisas eu não tenho. 'Olha, aqui está o caderno de encargos que vocês têm de cumprir. Se você vai cumprir ou não, é um problema seu. Agora, se não cumprir, a gente se reserva ao direito de não fazer corrida aqui’”, declarou o dirigente.


Massa não foi o único piloto que criticou o péssimo estado do Autódromo Nelson Piquet. Átila Abreu disse que a zebra em si ficou melhor do que a antiga, porém, a obra como um todo foi “muito mal feita”. “Infelizmente, no Brasil, a gente arruma as coisas depois que dá errado. O outro erro foi quem permitiu. É que nem Corpo de Bombeiros. Vai ter um show, tem que ter o laudo de vistoria do Corpo de Bombeiros. Quem andou ali na pista antes viu que ia dar errado. Que o bueiro estava malfeito. Pode colocar em risco a vida dos pilotos. Estava fadado a dar errado. Isso acaba queimando a imagem da categoria e do automobilismo brasileiro”, relatou ao GP.

Na visão de Cacá Bueno, a atuação da CBA é ineficaz. “Essa crise não é uma crise nova. É assunto desde a gestão passada, é um problema mais antigo, vem antes da gestão do Pinteiro, esse processo de não cuidar do automobilismo”, avaliou, em entrevista ao GRANDE PRÊMIO.

“Muitas vezes se critica a Globo, mas o crescimento da Stock Car se deve muito a essa divulgação que eles fazem. O crescimento da Truck, da GT... Tudo isso se deve a muito trabalho de marketing, mas pouco do automobilismo. A função de cuidar do automobilismo não é de quem divulga, é da federação”, cravou o pentacampeão.

Pentacampeão da Stock Car, Cacá Bueno entende que atuação da CBA é ineficaz (Foto: Duda Bairros/Vicar)

“As estruturas estão abandonadas há muito tempo. Acontece o que aconteceu em Brasília depois de anos de abandono, a estrutura chega ao seu limite”, acrescentou. Ele ainda citou os casos dos circuitos do Rio de Janeiro, Goiânia e Londrina. Dessa vez, o carioca isentou a Vicar, promotora da Stock Car, de culpa: “A gente critica muito, eu mesmo bato muito neles, mas é preciso ser justo: foram eles quem apresentaram a solução. Eles que fizeram com que a corrida fosse realizada”.

Diretor-geral da Vicar, Maurício Slaviero, procurado pelo GRANDE PRÊMIO, responsabilizou a direção do autódromo de Brasília pelo vexame. “Em todas as praças onde a Stock Car corre, a Vicar aluga os autódromos e espera que eles sejam entregues em condições de uso. No caso de Brasília, após uma vistoria feita pela CBA, foram solicitadas diversas modificações em alguns pontos, como caixas de brita, novas barreiras de pneus, acabamento de concreto com grama após as zebras e, também, a regularização dos bueiros que provocaram os problemas, todas estas obras foram feitas por eles. No entanto, como se verificou, as reformas dos bueiros não ficaram dentro dos padrões adequados e tiveram de ser refeitas após provocarem atrasos nos treinamentos”, enumerou Slaviero.

Cancelar um evento é, sim, uma alternativa possível diante da falta de segurança de um circuito, porém, Slaviero falou que esse “não era o caso” em Brasília. “A segurança dos pilotos sempre esteve, está e sempre estará em primeiro lugar, haja vista todas as mudanças que foram feitas nos carros da Stock Car e o novo projeto do carro do Brasileiro de Turismo”, garantiu.

Ainda segundo Slaviero, as obras “foram concluídas na semana anterior à corrida e tudo o que a CBA solicitou foi corrigido”. Essa fala, contudo, vai de encontro ao que relatou Átila. O paulista reclamou da demora na execução de melhorias necessárias.

“A gente sabia que ia correr em Brasília há algum tempo. Todas as obras são feitas na semana da corrida. Vai recapear a pista, fica pronto na semana da corrida. Tem um problema, espera-se o ano inteiro sem fazer nada e depois faz tudo às pressas para a corrida. Então o asfalto não está curado, as zebras, a mesma coisa. Terminaram de fazer as zebras um dia antes do começo dos treinos”, observou.

Átila Abreu seguiu Cacá e criticou os rumos do automobilismo brasileiro (Foto: Fernanda Freixosa/Vicar)

Átila também criticou a maneira como as decisões são tomadas no automobilismo brasileiro. Tanto ele, quanto Cacá enxergam que os pilotos têm pouco poder dentro da categoria. “Olha-se mais para os interesses comerciais do que para o que favorece o esporte”, opinou o paulista. “Não temos que nos preocupar só com a tampa do bueiro, mas com a situação do automobilismo brasileiro como um todo. Nós, pilotos, podemos fazer muito pouco”, reforçou o piloto da Red Bull. Além disso, “não é o papel dos pilotos fiscalizar e fazer laudos sobre a situação dos autódromos. Se marcam uma corrida em Londrina, por exemplo, vou pegar meu capacete e correr, não vou lá antes ver se o autódromo está em condições” completou o sorocabano.

Questionado sobre quais autódromos são realmente bons no Brasil, Abreu respondeu com certa dificuldade. “Gosto bastante dos circuitos de rua. Por incrível que pareça, foram muito bem feitos. Interlagos, obviamente, Curitiba eu acho que está em uma condição ideal... Velopark atende aos padrões... Para te falar assim, rápido, são esses cinco”, avaliou.

Slaviero também alertou para a condição das pistas. “Concordo que alguns circuitos do Brasil precisam melhorar para acompanhar a evolução de segurança dos carros e estamos, junto com a CBA, trabalhando para isso. Infelizmente não é um processo que ocorra tão rápido quanto gostaríamos”, disse.

Cacá Bueno encerrou retomando o começo de seu discurso e cobrando uma atuação mais enérgica da CBA e criticando a gestão do automobilismo brasileiro: “Não tenho nada contra o Pinteiro, contra a pessoa física dele, mas, claramente, a coisa vai muito mal, vem sendo muito mal administrada. A própria categoria que o Felipe [Massa] criou não teve apoio nenhum da CBA, não recebeu nenhum tipo de suporte”.

A mesma confederação que assistiu, inerte, à demolição do outro Autódromo Nelson Piquet, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, garante que, caso os problemas constatados neste fim de semana em Brasília não sejam resolvidos, nenhuma outra corrida por ela chancelada acontecerá na capital federal. Uma segunda corrida da Stock Car em 2013 está marcada para o dia 1º de setembro, daqui a três meses.

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