Coluna Indy Rocks, por Hugo Becker: Brasil, 17 de junho de 2013

Sim, nós sabemos exatamente as mudanças que desejamos. Portanto, você que está vendo o Brasil mudar do conforto do seu sofá, não tente burocratizar nossas causas. São muitas, acumuladas. E mesmo que nada mude, tudo já mudou. Se a atual democracia é burra, vamos torná-la inteligente. Nós podemos. Porque este país, amigos, é nosso

 
Cheguei a considerar seriamente não ir aos protestos de ontem em São Paulo. Quem me conhece, sabe. Não sou piegas, nacionalista nem iludido. É com certa frequência que digo que "o brasileiro, se quiser ser minimamente feliz, não pode ter senso crítico". Porque com um mínimo poder de observação, você percebe tantos absurdos, desmandos e abusos neste país, que muitas vezes seria melhor não observar, ser um ignorante. Nunca simpatizei com o patriotismo barato que se via até então, nunca tive grandes arroubos de paixão com nada que as mídias de massa tentam loucamente vender como regra dentro do imaginário habitual do brasileiro.
 
Até a última quinta-feira, eu defendia a ideia de que era melhor ser ignorante a ter poder de percepção. Qual a utilidade de notar tantas falhas no sistema governamental e social do Brasil sendo minoria, estando do lado mais fraco e vivendo em uma não-sociedade que não se mobilizava por nada, não lutava por nada? A tortura moral e psicológica não compensava. Cheguei, inclusive, a boicotar jornais e informações que não fossem segmentadas. Cheguei ao absurdo de tentar a alienação. Mas com tanta informação na cara, com tantos absurdos gritando dia após dia e cada vez mais, a tentativa foi inútil, e a indignação atingiu níveis inimagináveis.
 
Naquele dia 13 de junho, quando a Internet reverberou o inacreditável protagonizado pela Polícia Militar de SP e as emissoras de TV, por suas conveniências de sempre, trataram de abafar o assunto o máximo que puderam, a ficha caiu. Como eu, havia muitos outros – naquele dia, cerca de cinco mil, um número já considerável. A conjunção de fatores me fez enxergar, como a milhões de outros, que havia mais gente indignada. Esgotada. De saco cheio dessa jornada desgraçada que é ser brasileiro.
 
Os R$ 0,20 valeram milhões. Foram o estopim, a gota a mais a transbordar o copo já cheio até a boca. Os caras que foram às ruas na semana passada dimensionaram e levaram à reflexão: "Vale à pena lutar de novo?"

A PM, imunda naquele episódio, inspirou e deu a resposta: "Lutem. Porque vale."
 
Vale, sim, lutar. Os milhões que muitas vezes preferiram a alienação a assistir, dia após dia, um país construído sobre frágeis alicerces políticos e sociais, sustentados pelo nosso voto, pelo nosso dinheiro e pela nossa paciência, dessa vez encontraram uns nos outros uma voz que ecoou. Estes milhões, que se imaginavam um pequeno grupo social disperso aqui e ali, como rodinhas de amigos, de repente se perceberam sociedade. 
 
Mas mais do que mostrar ao país quem somos, mostramos isso principalmente a nós mesmos e uns aos outros, a cada um dos milhões que estavam ao nosso lado ontem, nas ruas e também nas redes sociais. Nos apresentamos. Deixamos de ser uma não-sociedade fragmentada em núcleos desencontrados. Paramos de reclamar sem agir. Usamos, a maioria de nós, de inteligência. 
 
Nos percebemos a força, a maioria, o povo. Ignoramos os rótulos preconceituosos e limitadores. Somos povo. Queremos, a maioria de nós – a maioria da maioria -, o mesmo.
 
Durante a caminhada da Faria Lima, quando éramos mais de 100 mil, até a Avenida Paulista, contei, com esforço, três ou quatro babacas vândalos. Pixadores oportunistas, loucos por quebra-quebra, no ápice da valentia com camisetas cobrindo o rosto e latas de tinta nas mãos. 
 
Repito: com esforço, três ou quatro vândalos. Em mais de 100 mil.
 
Estes três ou quatro eram devidamente repudiados quando agiam. "Sem vandalismo!", era o brado, consciente e sincero. Quando outra meia dúzia de oportunistas do PSTU e do PSOL apareceram com bandeiras e cânticos partidários, a massa explodiu e pediu incansavelmente "sem partido!" até os caras desistirem – e custou muito, obviamente, mas a maioria desistiu.
 
Ali, quase todos tinham e têm um lado partidário definido. Mas ninguém, em absolutamente nenhum momento, usou isso como argumento no protesto.
 
Quem iniciou cânticos contra a polícia também não ganhou voz. Ninguém – repito, ninguém! – estava lá em clima de festa aleatória, de bagunça, de acontecimento popular sem sentido ou de caos desnecessário. Queriam – queríamos, queremos! – unicamente protestar, de forma séria e pacífica, e assim provocar a mudança que desejamos.
 
E sim, nós sabemos exatamente as mudanças que desejamos, e ontem, protestamos por todas elas. Contra o aumento da passagem de ônibus? Sim. Mas também contra os gastos abusivos para a Copa do Mundo, contra o sistema de saúde bizarro, contra as falhas na segurança pública, contra os problemas no sistema educacional, contra a corrupção. 
 
Portanto, você que está vendo o Brasil mudar do conforto do seu sofá, não tente burocratizar ou menosprezar nossas causas. São muitas, acumuladas por décadas de silêncio e passividade. 
 
O Brasil é um país que tem muitos problemas em evidência ao mesmo tempo e durante longos períodos. Temos, sim, causas. Várias. Mas a revolta é tanta que é difícil focar em uma só, justamente no momento em que nos libertamos das próprias amarras e resolvemos lutar por incontáveis anos de crises acumuladas e oprimidas também por nós mesmos, por duvidarmos de nossa força. Não temos um problema central a ser solucionado. Temos vários. Não se trata de querer algo claro como as eleições diretas ou a queda de um presidente, como foi no passado. Queremos que tudo o que está errado mude. Essa é a nossa causa. Não é a sua? Deveria ser.
 
E não, não julguem o que aconteceu em São Paulo pela baderna daquela meia dúzia de imbecis que quiseram invadir à força o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, e a Prefeitura. Não julguem o que aconteceu no Rio de Janeiro pelos escrotos que foram às ruas preparados para tocar o terror e destruir patrimônios públicos, com o prédio da Alerj e da Assembleia Administrativa, incentivando o caos. Estes pertencem àquela linhagem de filhos da puta que ajudam a levar nosso país para o buraco. O que acontece é que antes, havia a impressão de que eles é que eram a maioria. Hoje, sabemos, vimos e vivemos para perceber que não. Que eles são, de fato, a minoria absoluta. Em cinco mil, dez mil, 100 mil, 1 milhão, 193 milhões.
 
No processo histórico, o Brasil é um país jovem, ainda. Muitos protestos, revoluções e embates virão, bem como muitas más surpresas nos governos do presente e do futuro. Não é o fato de estarmos em um mundo cercado por tecnologia e informação em tempo real que vai nos impedir de passar por este processo. É um caminho longo. Passará por nossos filhos, netos, bisnetos e assim por diante. 
 
Só não podemos ficar parados. Temos que fazer barulho, lutar. Precisamos, agora, acima de tudo, de uma liderança, uma voz que nos represente, que seja a nossa representação clara e verdadeira diante de tudo o que queremos, precisamos e devemos dizer, sem intermediários. Porque o movimento está criado e a força, consolidada. Agora é a vez de efetivarmos isso.
 
Fizemos, neste histórico 17 de junho de 2013, a verdadeira Festa da Democracia. Porque o que ocorreu ontem, sim, é democracia de fato e é motivo de celebração.
 
Na memória pessoal, o que vai ficar guardado até o último dia da minha vida é ter estado no meio daquela massa de mais de 100 mil pessoas a cantar, de forma uníssona, o Hino Nacional Brasileiro. Logo eu, cético por natureza, ao cantar junto, chorei. E ao olhar ao redor, vi outros chorando de emoção junto comigo. Impossível descrever.
 
Porque naquele momento, pela primeira vez, me senti parte de uma sociedade. 
 
Pela primeira vez, senti orgulho de ser brasileiro. 
 
E pela primeira vez, vi uma multidão mobilizada lutando por tudo aquilo que eu sempre acreditei. E isso, dinheiro nenhum no mundo paga.
 
Porque mesmo que não dê em nada, mesmo que nada mude, tudo já mudou. Plantamos a semente do Brasil que queremos. Precisamos construí-lo, agora. Com inteligência e sensatez. Em bases sólidas, sem repetir os erros de quem já esteve e está lá há séculos.
 
Se a atual democracia é burra, vamos torná-la inteligente. Nós podemos. Porque este país, amigos, é nosso. Acreditem e percebam isso. E vamos, sim, para a rua. Já.
 
Porque o Brasil vai ficar grande como nunca se viu.

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