F1
26/11/2013 08:30

Conta-giro: Dia na Williams revela orquestra de trabalho, TOC por limpeza e reverência a Frank

Um sábado na garagem de uma das mais tradicionais equipes da F1 dá a noção da organização de um grupo que se desacostumou a vencer, mas que trata tudo com respeito de campeão
Warm Up
VICTOR MARTINS, de Interlagos
 
O despertar do sábado se dá quando o dia clareia e mostra a mesma chuvinha sem-vergonha que assolou o primeiro dia de atividades em Interlagos. Parto para o hotel onde encontro os representantes da Pirelli que me esperam. Lá estão Jan Telecki – ex-diretor de marketing da fornecedora no Brasil e hoje homem da F1 lá em Milão – e Marco Cortinovis, diretor de mídia da América Latina –, além do Dr. Pirelli, personagem que responde às dúvidas e dá dicas sobre os pneus. O convite era incomum: ser um funcionário da Williams. Credenciamento feito, lá vamos nós de van para o autódromo de Interlagos.

Já no paddock perto das 9 da manhã, sou apresentado a Billy Coulson. Formado em Publicidade, Billy, 25, é recém-chegado no time britânico: desde abril, ocupa o cargo de gerente de parcerias. Naquele sábado, virou cicerone.

Billy Coulson, o responsável pelos patrocínios da Williams (Foto: Williams)
Billy apresenta a divisão daquela garagem que é assumidamente apertada. “Mas a gente se adapta”, sorri. As cerca de 80 pessoas ocupam meio que espaços fixos: logo à direita de quem entra, fica o grupo técnico da equipe, liderado por Pat Symonds. Sentam-se em uma mesa retangular, todos com seus laptops, trabalhando meio que em segredo de estado. As fotos são proibidas – vai que vazam dados de telemetria ou informações colhidas pelos carros. O espacinho ao lado, na diagonal, é uma espécie de cantinho de armazenamento das sobras. Do lado esquerdo, os computadores que delimitam a sala junto com os tapumes envolvem os motores V8. As unidades grandes impressionam pela imponência. “E os V6 serão bem maiores”, salienta Billy, que faz as explanações sobre o modus operandi daquele grupo.
 
O pequeno corredor, então, leva à principal parte da garagem. Pense que 30 negos estão ali para cuidar de dois carros relativamente grandes. Os lados são separados por uma gama de computadores e, às vezes, os pneus que são buscados lá na parte de trás do paddock. Mais à frente, próximo à saída dos boxes, faz-se um leque de seis computadores destinados à cúpula – muito mais a Claire Williams do que o pai Frank. Frank, aliás, é uma figura simbólica.
 
Os anos na cadeira de rodas entrevaram a atuação propriamente dita de Frank como chefe da equipe. Hoje aos 70, Williams expressa sem muita dificuldade o passar dos anos. Os cabelos brancos predominam. As mãos carregam uma proteção de nylon para a condução do objeto que complementa seu corpo há 27 anos. Sincronizadamente, os braços largam as rodas e esticam-se para baixo assim que encontra a posição onde quer ficar. Frank não passa mais que 10 minutos parado no mesmo lugar. Na maioria das vezes sem ajuda de ninguém, vai pra lá e pra cá e, se preciso, ‘estaciona’ a cadeira da mesma cor azul do carro de corrida em um canto onde não atrapalhe o vaivém de seus funcionários. Por várias vezes, observa a tudo afastado, sempre paramentado com fone de ouvido. O mecânico que dele cuida se preocupa em saber se Frank quer comer algo. Logo, serve ao chefe salada de frutas e um suco.
 
Billy me conduz e me apresenta para um grupo. Andy e Rob são dois dos responsáveis pelos pneus. Como funcionário-tampão, foi o único trabalho que realizei: o de marcar a pressão dos pneus em um bloco de papel surrado e levemente molhado pela garoa constante. Os quatro números anotados são diferentes entre si, e logo o papel é dobrado ao meio e posto junto a outros que Andy carregava no bolso da camisa. Uma jovem que usava camiseta da Pirelli logo pega o emaranhado e se prepara para passar as informações em um programa em seu tablet. A moça vai ao encontro de outra colega e logo é seguida pelo rapaz que traz o jogo de pneus intermediários.
Os pneus Pirelli em exposição (Foto: Victor Martins/Grande Prêmio)
A poucos minutos do início do treino livre, Pastor Maldonado aparece já trajado, só lhe faltando o capacete. Um dos mecânicos passa insistemente um pano para deixar a asa traseira impecável para sua primeira apresentação ao público naquele sábado. Assim que o venezuelano pula no carro, um colega aparece para colocar sobre o cockpit a pequena tela dividida entre a imagem da transmissão oficial e os tempos das voltas que estão por vir. Nisso, o pano já é visto no resto da carenagem, frenético, provavelmente matador de qualquer vírus ou bactérias que tenham inflluência em alguns milésimos. Valtteri Bottas chega, e o processo se repete do lado esquerdo. Já com o fone, ouço as primeiras instruções que são dadas: tantos minutos para o começo da sessão, saída no início, temperatura, previsão, condição da pista, uso dos pneus, sistemas, vida. Os carros são ligados, e aí se percebe a outra função do fone: a de não ensurdecer.
 
Assim que os pneus são calçados, um pequeno computador pendurado no teto da composição da garagem passa a registrar a temperatura dos pneus, sempre acima de 80ºC. Bottas é o primeiro a sair. O vazio na garagem permite ver no chão os três pontos que delimitam a posição dos pneus e as marcas deixadas. Rapidamente, quatro mecânicos pegam um papel destinado a remover óleos e gorduras e, de posse de uma lata de spray mágico, vão lá tirar o pretume em formato de ranhuras. O chão fica impecável até que o carro rasgue a reta principal de Interlagos para abrir sua primeira volta. Valtteri passa suas primeiras impressões: “Está muito, muito molhado”, e a todas as respostas, ouve-se da equipe um “copied that”. Faltou só um “QAP, Valtinho na escuta”. Maldonado sai e relata um cenário parecido no traçado paulistano. “Copied that”.
 
A Williams não esconde que a chuva é aliada. “Você viu o que Bottas fez no Canadá”, relembra Billy. Naquelas condições, sem necessidade de uso pleno dos ‘wets’, O finlandês novamente impressiona e fica em quarto. Maldonado chega a ficar em sexto e termina em oitavo. “Good job”, é o que se ouve – no caso para Valtteri. Maldonado desce do carro, vê os tempos e deixa a garagem. As carenagens são retiradas e mostram aquela peça bem trabalhada que forma um carro de F1. O motor se impõe diante da fiação do assoalho. As peças que se soltam são penduradas, e o novo trabalho de limpeza se inicia. Os pneus usados passam a ser alvo das moças da Pirelli: com um termômetro, checam em cinco pontos os graus Célsius e tomam nota.
 
Dois comissários devidamente identificados atuam com mais precisão a partir de então, andando aqui e ali quando convem, para registrar os atos nas pranchetas que carregam. Aquele que estava encarregado de vigiar Maldonado e seu grupo verifica que o combustível é retirado do carro já despido de sua carenagem. Quando os pneus são retirados, pegam uma pistola a laser para registrar o número de série do código de barras do pneu, tal qual um caixa de supermercado. Só aí, libera seu transporte para seu local de origem, o paddock, onde as peças redondas de aro verde são lavadas para possível reuso.
 
Após o almoço, a classificação começa e é vista com certa expectativa. Os movimentos são orquestrados: a mensagem via box, a limpeza do chão, o carregamento dos pneus. E no fim do Q1, pode-se dizer, também, que a performance de Maldonado comparando com o que fez no ano todo: a eliminação. Os dois carros voltam aos pits, mas o lado direito se prepara para o pós: Pastor desce do carro, tira o capacete, deixa as mãos livres do macacão, olha os tempos e, acompanhado de um membro do time, sai em direção aos pits rumo ao cercadinho da imprensa. Notoriamente, ninguém se importa muito – é a última classificação do venezuelano, que não haveria de repetir as palavras de suspeita de sabotagem. As atenções se viram para Bottas.
 
A situação do TL3 não se repete, e o finlandês fica pelo Q2. 13º até que estaria de bom grado pelo ano da equipe, mas é visto com tristeza por seus mecânicos. Perto da TV, Claire fixa seu olhar no tempo com os braços cruzados e um movimento lento de pernas. A dirigente só deixa aquele espaço assim que sabe da aproximação do carro. De novo, a sincronia: o #17 que entra, o piloto que sai, a carenagem que é retirada, o comissário que se aproxima, os pneus que são fiscalizados, a limpeza, mais limpeza, muito mais limpeza. Valtteri recebe cumprimentos e parte para as satisfações à mídia.
 
Claire passa pelo pai e, com um movimento de boca cerrada, indica sua resignação por mais um resultado ruim. Frank ergue a cabeça e retribui com um sorriso. Logo, o veterano se desloca para seu cantinho ali no fundo esquerdo, de onde não há de demorar para sair.
A posição da Williams no pit-wall (Foto: Victor Martins/Grande Prêmio)
Entre o vácuo de 40 minutos que deram pela frescura da FIA, Frank entra no corredor para a parte de trás e recebe a atenção de seus pares, Bottas volta e recebe a atenção e um beijo de Claire; de Maldonado, nem sinal. Os carros começam a ser desmontados, parafusos caem, a gasolina idem, o assoalho vem à tona e mostra fios presos. Começa um novo processo de limpeza. O pessoal só para para ver o Q3 e solta um ar de espanto com a volta de Vettel. A classificação acaba, Frank se desloca, Claire retira o fone e faz suas avaliações, e o trabalho só continua na Williams para checar se está tudo OK. 
 
Cumprimento Billy e deixo a pista, e a orquestra só encerra os trabalhos quando tem a certeza de que o ensaio foi completo. O amanhã é o último dia de espetáculo no ano. Mas antes é hora da foto final, e todo mundo precisa aparecer do jeito que a Williams se apresenta: organizada, impecável compulsivamente, dedicada a seu comandante.
Foto de fim de ano em Interlagos (Foto: Williams)


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