F1
05/09/2013 04:30

Coluna Superpole, por Victor Martins: As asas de fora

O cenário em que Ricciardo vai pisar aponta a prudência de não brigar abertamente com Vettel com a necessidade de despontar para o mundo exibindo suas credenciais. Ricciardo tem de ter a inteligência de cutucar e provocar Vettel sem o confronto direto. A solução? Fazer o que lhe deu a vaga na Red Bull: minar o companheiro nas classificações
Warm Up
VICTOR MARTINS, de São Paulo

A F1 vai terminar sua temporada europeia novamente na reunião dominical da italianada, mas sem olhar diretamente para o que acontece no Mondo Ferrari. Já se sabe de antemão que nenhuma decisão vai sair daqueles boxes, de modo que qualquer passo mal dado ou erguer de sobrancelha de Fernando Alonso, Felipe Massa ou Luca di Montezemolo só vão suscitar ilações e não certezas. E como o campeonato está muito bem encaminhado em favor de Sebastian Vettel, as lentes nervosas estarão focadas no outro extremo, do lado dos boxes das nanicas. É na Toro Rosso que a vida da categoria começa a ter sentido para o ano que vem. É alguém que ali, há alguns dias, virou oficialmente a página da vida.
Belo sorriso, hein, Ricciardinho? (Foto: Getty Images)
Daniel Ricciardo sabe que, bem aos 24, vai ter de mostrar justamente se é homem para a F1. Segundo promovido na linha da Red Bull, o australiano era de início a escolha natural da equipe para fazer valer o investimento absurdo de marketing em duas equipes – avaliado em aproximadamente vultosos R$ 664 milhões/ano –, mas rapidamente se tornou o azarão com a disponibilidade de Kimi Räikkönen no mercado e a possibilidade de Fernando Alonso chutar os fundilhos do cavalo empinado de Maranello. No fim das contas, Ricciardo foi o que o grupo de quatro cabeças siamesas convencionou como ‘melhor’.
 
Didi Mateschitz, Christian Horner, Adrian Newey e Helmut Marko entenderam que o conceito de ‘melhor’ não significa ter ali na mesma garagem os dois pilotos de maior qualidade. Pegar Räikkönen ou Alonso traria um ambiente novo ao time que está ganhando: dois pilotos do mesmíssimo alto calibre que, na provável briga entre eles, acabariam promovendo os demais na luta pelo título, sobretudo o de Construtores – que é aquele para o qual a FOM olha para premiar as fabricantes de carros. A Red Bull não precisa ir muito longe para ver que dois gênios pode gerar um cenário genioso: a explosão entre Alonso e Lewis Hamilton em 2007 deu o título a Räikkönen. Em 1986, a Williams de Nigel Mansell e Nelson Piquet era tão beligerante fez de Alain Prost campeão. E no fim das contas, a F1 como um todo acaba concluindo que, se é um mal à essência do esporte, é necessário ter um #1 que honre as metas dos louros da vitória e um #2 que tire pontos dos outros concorrentes à taça.
 
Ricciardo acaba sendo a opção mais do que natural por uma série de motivos. Se a comparação direta é Vettel, eis um ponto de partida igual: a F-BMW, em 2006. Na edição asiática da competição, de cara foi terceiro colocado com duas vitórias, 1 pole e 3 voltas mais rápidas. Fez duas corridas pela versão inglesa, participou do mundial e arregalou os olhos das águias travestidas de touros. No ano seguinte, já vestia o macacão azul na disputa da F-Renault 2.0, a caçulinha da World Series, enquanto via o futuro companheiro se preparando para ingressar na F1 na metade daquele ano. Daniel foi campeão em 2008 e pulou para a F3 Inglesa, onde repetiu a dose. Na WSR em 2010, ficou em segundo, dois pontos atrás de Mikhail Aleshin. Já que era tão bonzão, foi testado pra valer em 2011 para ver o que seria capaz com a ‘silla elétrica’ da HRT no meio da temporada. Ganhou um lugar na Toro Rosso em 2012 até porque os dois titulares foram rifados: Jaime Alguersuari foi defenestrado do grupo e Sébastien Buemi aceitou ser nada com papel de luxo na condição de duplo-reserva. Deu o salto na carreira junto com Jean-Éric Vergne – que até é melhor visto no QG da Red Bull. Em termos de pontos, está atrás como esteve no ano passado. Mas seu desempenho em classificações e sua velocidade natural lhe carimbaram o prêmio.
 
Então são mais de seis anos de puro conhecimento daquela operação e de seu modo de agir. Daniel teve sua personalidade e seu caráter esportivo devidamente moldados na transição de sua adolescência à vida adulta. Sem que Buemi possa correr ou com Vergne que ainda precisa ser melhor lapidado, Ricciardo foi fazendo o seu estando justamente no momento certo para obter suas ascensões. Alguersuari não teve jamais essa sorte. Nem Christian Klien, o primeiro candidato, que pegou a equipe herdada da Jaguar, foi além na carreira e hoje está fadado ao esquecimento.
 
Nunca que a Red Bull vai exigir de Ricciardo o título numa temporada em que tudo muda. Para Horner e os demais, ser mais do mesmo de um Webber num primeiro momento – enquanto resultados de pista – , é ideal: pegue ali as posições entre segundo e quinto, filhão, que o negócio é esse. Quando der, claro, belisque a vitória e faça valer o investimento. Ricciardo, molecão de tudo, não demonstra ter a personalidade conflitante daquele que vai lhe deixar a vaga, e ter o apoio explícito de Vettel há de lhe ajudar a entender como é estar no maior degrau da escada. A cabeça de um jovem entende a do outro. Vão tentar dar um jeito de colocar isso em sua cabeça que a osmose é o novo remédio para sua inteligência.
 
Por outro lado, o humilde Ricciardo passa a entrar para um mundo de astros que um dia hão de mostrar quem são. Quase todos os maiores do esporte carregam em si o gene da dubiedade entre talento e mau caratismo. Vettel foi mostrar sua faceta com um tricampeonato no bolso, no GP da Malásia deste ano, no episódio do ‘Multi21’ em que roubou de Webber a vitória – e que provavelmente o fez pensar na saída da F1. Alonso, Michael Schumacher, Nelson Piquet e Ayrton Senna não levaram tanto tempo para demonstrar que a sujeira é parte de um excelente piloto de F1. Mas no caso de todos eles, já era possível verificar em quatro ou cinco provas que o céu era o limite.
Até quando vai durar o bom relacionamento dos dois? Vai depender de Daniel (Foto: Red Bull/Getty Images)
Assim, o cenário em que Ricciardo vai pisar aponta a prudência de não brigar abertamente com Vettel com a necessidade de despontar para o mundo exibindo suas credenciais. Ricciardo tem de ter a inteligência de cutucar e provocar Vettel sem o confronto direto. A solução? Fazer o que lhe deu a vaga na Red Bull: minar o companheiro nas classificações.
 
Na atual temporada, Vettel massacra Webber: nunca viu o companheiro largar à frente. O máximo que o australiano conseguiu impor em cinco temporadas foram duas sequências de três grids melhores: uma logo no começo de 2012 e outra em 2010, entre as provas 5 e 7 do campeonato (Espanha, Mônaco e Turquia). As poles já falam por si só do domínio de Sebastian: 38 a 11 nos tempos de Red Bull. Se com as novidades técnicas, a equipe continuar na crista da onda e Ricciardo souber fazer o que tem de melhor, tem-se aí o novo candidato a ser o próximo campeão inédito da F1. Do contrário, a comparação direta com seu antecessor compatriota será feita, e ser exposto às lentes nervosas vai trazer críticas ferozes e vorazes que o tratarão como provavelmente a Red Bull quer vê-lo, como esse Webber 2.
 
Sua primeira corrida na casa grande deve ser justamente diante de seu público. Na meticulosa F1, aprender e saber esperar podem ser uma virtude, mas o ditado lembra que quem sabe faz a hora. A Red Bull promoveu Ricciardo às vésperas do GP da Itália, de onde vem parte de seu sangue, sangue que também tem o gosto explícito pelo MMA do UFC. Se há indícios de que a luta é o mais provável, só por trás do sorriso desbragado de ‘Dan’s The Man’ há a certeza da resposta de dever ou não pôr as tais asas de fora logo de cara.  

***

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