Endurance
20/06/2018 06:00

Le Mans 2018 poderia ser melhor, mas é justa com Toyota. E Alonso, feliz, se vê mais longe da F1

A edição das 24 Horas de Le Mans de 2018 até poderia ter sido melhor, mas há que se admitir que se fez justiça com Toyota, que sempre investiu pesado e esperou 32 anos pelo triunfo. Além disso, também ficou claro que Fernando Alonso já não considera tanto a F1 em seu futuro
Warm Up / RODRIGO MATTAR,  do Rio de Janeiro
 Finalmente Toyota encontrou a vitória em Le Mans. Um triunfo para a história (Foto: Toyota)

As 24 Horas de Le Mans deste ano poderiam ter sido melhores. Em comparação ao suspense dos dois últimos anos, a edição de 2018 perdeu com vários corpos de vantagem em relação às anteriores. Mas enfim a justiça foi feita em favor da Toyota. Foram 19 tentativas fracassadas em 32 anos, até que na vigésima vez os japoneses conseguiram alcançar o tão sonhado objetivo.
 
Ficou claro que o regulamento deste ano do WEC favoreceu claramente à Toyota, única construtora oficial de fábrica que permaneceu na LMP1. E ela não tem culpa do que aconteceu com as rivais Audi e Porsche – vítimas do escândalo do “Dieselgate” da Volkswagen, que continua fazendo vítimas ao atacado. Agora foi a vez do presidente da marca de Ingolstadt, que acabou preso. Os japoneses seguiram em frente em busca do tão sonhado objetivo e quebraram um tabu de longos anos. Parabéns a eles pelo investimento e pela persistência.
 
Um consenso geral é que “foi chato porque a disputa se resumiu a dois carros e uma equipe”. Engraçado... quando a McLaren dominava com Senna e Prost em 1988 ninguém falava nada; o mesmo com a Williams e seu ‘carro de outro planeta’ em 1992. Desnecessário dizer que com Schumacher dominando a bordo da Ferrari, Vettel ganhando tudo com a Red Bull e o domínio recente da Mercedes, ninguém fala nada.
Bandeirada e festa da Toyota nas 24 Horas de Le Mans (Foto: Toyota)
Vou mais além: até mesmo no Endurance e na própria 24 Horas de Le Mans, a Audi, tão celebrada e de quem tantos sentem falta, cansou de correr contra ela mesma no início dos anos 2000 e era decidido quem vencia antes mesmo da corrida começar. Se isso aconteceu agora com a Toyota, qual o problema? Que mal tem em fazer o carro #8 com Fernando Alonso, a principal atração da companhia, vencedor?
 
Pois é: sobre isso falaram em teorias conspiratórias, em favorecimento, mas é inegável que o espanhol estreou com o pé direito - literalmente. Na média de suas 40 voltas mais rápidas na corrida em La Sarthe, Fernando foi 0s351 mais rápido no comparativo com o segundo mais rápido. Sua melhor volta em prova só perdeu para a de Sébastien Buemi no carro ganhador. Então, procurem outra desculpa para desfeitear a vitória de Alonso no último fim de semana, porque esta não cola.
 
Os independentes fizeram o que lhes foi possível e somente três desses carros fecharam a disputa – fechar é o termo, já que o Ginetta da Manor que sobreviveu teve inúmeros problemas. A Rebellion segue como segunda força e a SMP Racing mostrou que tem um equipamento razoável, mas pouco resistente em corridas mais longas que as de seis horas que pontuam a maioria dos eventos do calendário.
 
É pena que esses projetos desenvolvidos para a Super Season atual terão vida curta. Mas todo mundo sabia que o ACO e a FIA iriam mudar o horizonte do regulamento técnico para a partir de 2020. O anúncio da sexta-feira anterior da corrida mostra um caminho, mas até agora não se sabe se esse é realmente o caminho que será seguido.
A comemoração da Toyota com a equipe Rebellion em terceiro em Le Mans (Foto: Toyota)

Cabe notar que as duas entidades haviam elaborado no ano passado uma proposta de LMP1 com “plugin”, obrigando os carros híbridos a percorrer 1 km na pista em cada prova, além da faixa de box, onde o motor elétrico é o trem de força. Era uma ideia para seduzir a Peugeot e que não deu certo.
 
O conceito dos Hypercars é para atrair marcas que estão fora das classes principais, como Ford, Aston Martin e Ferrari, há muito tempo. Existe entusiasmo sim, mas não uma certeza de que todos os envolvidos nas reuniões entrarão de sola como construtores oficiais. É algo que precisaremos esperar acontecer no futuro.
 
Quanto à disputa nas demais categorias, uma tardia alegria para o fã brasileiro na LMP2: a vistoria técnica pegou no contrapé a equipe francesa TDS Racing, que se fez valer de uma peça usinada não homologada para proporcionar um fluxo de combustível acima do normal nos reabastecimentos, ganhando assim de seis a oito segundos de vantagem em cada pit stop.
 
O que era suspeição tornou-se certeza e o carro vencedor de Jean-Éric Vergne, Andrea Pizzitola e Roman Rusinov perdeu a vitória na vistoria, assim como o de Loïc Duval, François Perrodo e Matthieu Vaxivière, quarto colocado, também foi excluído. A falcatrua proporcionou o triunfo ao trio da Signatech-Alpine Matmut, do brasileiro André Negrão e dos franceses Nico Lapierre e Pierre Thiriet.
 
Aos 26 anos, o antigo piloto da hoje Fórmula 2, da extinta World Series e da Indy Lights torna-se o quarto brasileiro campeão em La Sarthe em subcategorias – igualando Thomas Erdos (LMP2), Jaime Melo (LMGT2) e Daniel Serra (LMGTE-PRO). Negrão teve o mérito de se destacar de cara a bordo de um equipamento competitivo e rápido. E já se coloca como um sério candidato a repetir Bruno Senna e levar o troféu de campeão mundial de pilotos na LMP2 nesta Super Season.
O belo Pink Pig da Porsche da LMGTE-Pro em Le Mans (Foto: Twitter)

As divisões de Grã-Turismo foram um passeio da Porsche, com vitórias dos carros do construtor de Stuttgart na LMGTE-PRO com o simpático “Pink Pig” e na LMGTE-AM com o time do ator de Hollywood Patrick Dempsey. Faltou um pouco de emoção às disputas, bem menos equilibradas por conta da disparidade de performance de alguns equipamentos, é verdade. Mas houve momentos épicos na pista.
 
A dupla ultrapassagem de Antônio Félix da Costa, da BMW, sobre dois dos Ford da equipe Ganassi foi uma dessas situações que fizeram a corrida valer a pena, assim como a “lenha” entre os franceses Fred Makowiecki (Porsche) e Sébastien Bourdais (Ford).
 
Quanto aos brasileiros, com a vitória de André Negrão, a quarta posição geral de Bruno Senna, o 5º posto de Pipo Derani na categoria LMGTE-PRO e a sétima de Daniel Serra, o saldo pode até ser considerado positivo. A lamentar o acidente que tirou a BMW de Augusto Farfus da disputa e o impressionante erro de cálculo da Ford Chip Ganassi Racing, que deixou Tony Kanaan menos tempo na pista que o mínimo permitido, jogando fora um ótimo 4º lugar – transformado em décimo-segundo na LMGTE-PRO – e que inclusive coloca os titulares Andy Priaulx e Harry Tincknell como carta fora do baralho neste início de campeonato.
André Negrão na tripulação da Signatech Alpine, segundo na LMP2 em Le Mans (Foto: Dunlop)
Só que a Super Season ainda terá mais seis corridas até o encerramento de gala com a 87ª edição das 24 Horas de Le Mans em 15 e 16 de junho do próximo ano. É claro que muito vai acontecer, mas a Toyota já deixou bem claro neste último fim de semana que o primeiro objetivo foi alcançado.
 
Fernando Alonso já tem a conquista de La Sarthe para se juntar ao GP de Mônaco de Fórmula 1, faltando agora as 500 Milhas de Indianápolis. O espanhol, ovacionado pelo público e feliz como há muito não se via, parecia empolgado com o troféu a tiracolo, como se fosse um novo brinquedo.
 
Alguém tem mais dúvidas de que o futuro de Don Alonso de las Asturias está fora do ambiente da categoria máxima?